Deixe um comentário

Um buraco negro

A decisão de confirmar a condenação de Lula, aumentando a pena inicial de nove para mais de doze anos, deixa no país um enorme espaço de incerteza, porque aparenta uma irresignação pacífica do condenado e uma euforia controlada dos seus adversários. Ora se cogita que foi fruto de manifestação pessoal e política dos juízes e procuradores em desfavor do acusado, enquanto por outro lado se tornou como castigo por prática de corrupção generalizada que se investiga contra os acusados.

As reações prós e contra se limitam por enquanto às postagens nas chamadas redes sociais. Os partidários do Lula se retiraram ordeiramente dos locais onde se concentraram de forma civilizada, tão logo se proclamou o resultado desfavorável. O mesmo ocorreu com os que queriam a condenação, em manifestações de apoio aos julgadores e satisfação pela pena aplicada. Dá-nos a impressão que estamos vivendo um democracia plena, de absoluta maturidade. Mas ainda assim, me vejo olhando para um espaço vazio, sem expectativa de um caminho em frente.

No rigor das investigações e das denúncias, a justiça entrou contra o réu, contrariando aquela máxima de lhe favorecer na dúvida. Esse processo em si, como todo o conjunto da chamada lava jato, me parece um samba de uma nota só, o estado, representado pelo Ministério Público e pelo Judiciário, embora devesse ser isento no julgamento, atua como agente repressor, moralista e punidor. Enquanto acata meros indícios para acusação, repele toda e qualquer tentativa de argumentos contrários, impedindo o exercício da ampla defesa e do contraditório.

A comunidade jurídica, em sua grande maioria, através de artigos publicados na mídia, critica esse comportamento considerado parcial dos julgadores, que usam e abusam do arbítrio e do poder que detêm, que não são deles pessoalmente, e que lhes tem sido assegurado de forma absoluta, porque aos réus de nada podem ou têm a quem reclamar, visto que nota-se um complô acusatório que envolve as instâncias, mesmo contrariando a lei. A convicção pessoal e subjetiva basta para decidirem. E a palavra de um delator ou de um acusado contra quem quer que seja, tem efeito de lei, enquanto que ao acusado, por mais que comprovem ou que contestem, nada é acatado.

No julgamento de ontem, as manifestações elogiosas dirigidas ao juiz da primeira instância, embora deliberada para alfinetar os advogados da defesa, foi uma demonstração explícita da parcialidade, visto que ali estava em julgamento justamente uma decisão daquele. Quis tripudiar como se adversário fosse, e tornou desnecessário permanecer declarando o voto, que desde logo todos já se sabiam qual seria. Permaneceram numa verborragia prolixa e aparentemente didática, como se fosse o professor Astromar Junqueira discursando na novela Roque Santeiro, na história de Dias Gomes.

Esse espaço vazio me preocupa porque, ao gosto dos petistas estatísticos, “nunca antes na história deste país”, um ex presidente da república foi julgado e condenado a prisão, apontado por corrupção, debalde todas as suas negativas de ter praticado crime. Esse grito surdo e silencioso, é incompatível com a aceitação do Lula na preferência do eleitor e do povo brasileiro. Me parece fora de qualquer sintonia essa resignação simples.

Hoje Lula estará viajando para a Etiópia. Diz que vai participar de um evento de combate a fome. Que assim seja, me parece contudo que por lá ficará. Certamente não lhe faltará abrigo em qualquer país do mundo, porque não se tem dúvida que a motivação da condenação é política, até mesmo quando sequer foi preso mesmo condenado em segunda instância, enquanto outros estão atrás das grades sem julgamento. Essa deferência de mantê-lo solto contraria toda a trajetória da lava jato. Não o prendem porque foi presidente, e assim a liberdade é politica.

Temo que haja um fogo de combustão espontânea, as tentativas de incendiar o país tem resultado em abanar carvão molhado. O judiciário assumiu o poder, e legisla e governa, escolhe quem deve ser ministro e quem deve ocupar cargos, a figura do presidente da república, combalida por acusações e suspeitas, é desrespeitada e ignorada.

Assim, espero que esse clima de harmonia, civilização e democracia permaneça, e que se procure, pelo menos doravante, os poderes se respeitem entre si, e cada um faça a sua parte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *